A rota do chá: Viagem ao Japão

O Japão é outro destino imperdível na rota do chá. Um país que sofreu incontáveis desastres naturais e guerras, mas que se reergueu perante o mundo com vigor e elegância majestosos.

A cultura japonesa é impactante e cativante por diferentes motivos: por exemplo, ao percorrer cidades muito povoadas como Tóquio, a capital do Japão, que supera os 35 milhões de habitantes em sua região metropolitana, o silêncio nas ruas é surpreendente. Ninguém levanta a voz, ninguém corre, não se escuta nem uma buzina. Inclusive, até poderia parecer que existem poucas pessoas andando pelas calçadas. No metrô, o silêncio também nos causa espanto.

Manos té

Tal é a falta de ruído que em algumas linhas se escuta o som de pássaros que saem dos alto-falantes do trem. Acredito que esses exemplos ilustram muito bem o que o respeito significa no Japão. Cada vez que tenho a oportunidade, eu gosto de compartilhar com meus alunos como esse valor do chá se mostra representado de uma forma muito viva no país do sol nascente.

Para o amante de chá verde em particular o Japão é como se fosse uma viagem à Disney. Essa infusão está presente em todo o tempo, em todos os lados. O chá verde em pó matcha, utilizado na tradicional cerimônia do chá de Japão (Chanoyu), é parte cotidiana de muitas receitas de gastronomia: se consome macarrão de matcha, chocolates com matcha, bolinhos de matcha, tortas, sopas e todo tipo de alimentos doces e salgados.

Também nas ruas é possível encontrar máquinas automáticas de bebidas frias e quentes onde o matcha é o grande protagonista. Cadeias internacionais como Starbucks adaptaram alguns produtos ao gosto local oferecendo shakes e lattes de chá verde. Inclusive os hotéis oferecem no café-da-manhã a opção de café ou matcha latte. Uma loucura de sabor para nós que sucumbimos diante da Camellia sinensis.

Voltando aos chás em ervas, quando eu estive no Japão tive a oportunidade não somente de falar com muitas pessoas, mas também de participar na primeira colheita de chá do ano, um privilégio para um amante do chá.

SHINCHA:  a primeira colheita do chá japonês

Campos de té en Japón

Shincha é o nome japonês para a primeira colheita do chá do ano, que geralmente é realizada no começo do mês de abril. O shincha em sua maioria é consumido dentro do Japão, uma vez que é muito apreciado pela população local e é bastante caro, assim que é muito raro encontrá-lo no Ocidente.

Depois de passar alguns dias frios em diferentes cidades e povoados de zonas rurais durante mais de duas semanas no mês de abril, ao chegar às plantações de chá do sul de Kyoto fui abençoada com um clima mais ameno e dias ensolarados. Isso gerou a oportunidade para muitos produtores de chá de colher e elaborar o primeiro chá do ano.

Ainda que o Japão seja um país pequeno em termos de território, seu povo obtém o máximo de cada porção de terra, usa diferentes processos que contribuem, junto com um clima adequado, composição do solo e a mão-de-obra, para a produção de chás muito diferentes e maravilhosos. Mas não se trata somente de recursos, trata-se do amor que possuem pelo chá. Minha busca do chá me permitiu conhecer gente muito valiosa, profissionais e artesãos que dedicam suas vidas à agricultura e à sua paixão pelo chá.

Foi exatamente isso que compreendi quando, com a brisa fresca da manhã acariciando minha face enquanto percorria os “campos celestiais” no cume de uma montanha em Wazuka, ao sul de Kyoto, juntamente com Matsumoto, vice-presidente da Obubu Tea Plantations, perguntei a ele: “o que o chá significa para você”? Ele me respondeu: “Nós acreditamos que o chá tem um papel em conectar as pessoas. Em 2011 houve um grande terremoto e tsunami no Japão.

Logo depois do terremoto as pessoas sobreviviam bebendo água. Imediatamente nossa companhia passou a oferecer chá às pessoas que ainda estavam lutando na zona do desastre. As pessoas, enquanto tomavam o chá, nos diziam que a água acalmava a sede, mas o chá aliviava a dor…. Para nós o chá é algo que nos conecta às pessoas”.

Primeira parada: Uji

Em Uji, umas das regiões produtoras de chá mais conhecidas do Japão, me reuni com a senhorita Hitomi Hayamizu de Itohkyuemon, quem me fez provar seu shincha, o primeiro chá verde de alto grau do ano, colhido e elaborado somente alguns poucos dias antes da minha chegada aos arredores de Uji.

Preparado em uma chaleira Kyusu tradicional, esse chá tinha um sabor dos deuses, com notas  frescas a flores no ataque, notas a vegetais crus, pasto, algas e limão no meio e um gosto final de umami delicioso. Era um chá leve, fresco e muito aromático.

Segunda parada: Wazuka

Em Wazuka eu visitei meu amigo Matsumoto-san que mencionei acima, um encantador produtor de chá. Quando estava ali, Matsu fez com suas próprias mãos um chá verde delicioso “Kama-iri” com a primeira colheita do ano. Esse chá é elaborado de uma forma diferente do tradicional chá verde japonês: não se aplica vapor (na etapa de fixação no processo de elaboração) mas sim um processo de calor seco fazendo uso do wok, o que faz com esse chá tenha um sabor muito mais suave e doce que os chás verdes fixados no vapor. Tem notas sutis a nozes e arroz tostado.

Terceira parada: Kyotanabe

La ruta del Té: Viaje a Japón

Em Kyotanabe tive a honra de conhecer o senhor Yamashita Toshikazu, o mestre de chás que elabora o chá para o imperador do Japão. O senhor Yamashita preparou seu Gyokuro (primeira colheita do ano) em um famoso bule Houhin e me ofereceu um pequeno copo desse ouro verde elaborado e preparado com suas próprias mãos. A sensação de experimentar o primeiro chá da temporada das mãos desse mestre de chás tão prestigiado, junto com a perfeição dessa infusão, fez com que esse momento fosse verdadeiramente inesquecível.

Com um intenso gosto a umami, redondo na boca e com um grande corpo, esse chá tinha notas a espinafre fervido, azeitonas verdes e algas. Com uma textura aveludada, era um chá largo e intenso, que quase se podia mastigar!

Como sempre digo, descobrir a origem de cada chá representa uma viagem emocionante ao coração da milenar cultura do chá.

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Sobre mim

Victoria Bisogno

Sou Victoria Bisogno, fundadora do El Club del Té e criadora da Técnica de Análise Sensorial de Chá, a primeira metodologia com fundamento científico focado na análise sensorial do chá.

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